Número ultrapassou o total registrado em 2017. Pessoas de 30 a 39 anos concentram a maioria dos registros no primeiro mês do ano.
Por Mariana Garcia, g1
O Brasil registrou no primeiro mês do ano 243.721 casos (prováveis e confirmados) de dengue, um aumento de mais de 160% se comparado a janeiro de 2023, quando o país contabilizou 93.298 casos. Enquanto os casos subiram, o número de mortes caiu de 61 (2023) para 24 (2024) — vale ressaltar que 163 óbitos estão em investigação. Os números estão disponíveis no painel de arboviroses do Ministério da Saúde e foram atualizados na quarta-feira (31) às 14h17.
🦟🦟🦟O total registrado em janeiro já ultrapassou todos os casos de 2017. Naquele ano, o governo contabilizou 239.389 notificações.
Casos de dengue - série histórica
- 2010 - 1.011.548 casos
- 2011 - 739.370
- 2012 - 589.591
- 2013 - 1.454.871
- 2014 - 589.107
- 2015 - 1.688.688
- 2016 - 1.483.623
- 2017 - 239.389
- 2018 - 262.594
- 2019 - 1.545.462
- 2020 - 948.533
- 2021 - 531.922
- 2022 - 1.420.259
- 2023 - 1.658.816
Todas as faixas etárias
O aumento em 2024 nos casos ocorreu em todas as faixas etárias, com pessoas de 30 a 39 anos concentrando o maior número de registros — foram 48.672 notificações só em janeiro. No ano passado, as notificações para esse público chegaram a 18.796.
"Uma das características da dengue no Brasil é sua distribuição democrática por faixa etária. Por mais que vejamos a pirâmide de registro de casos, se você fizer recortes, a incidência é muito igual. A dengue afeta todas as idades, não é como a meningite, por exemplo, que afeta mais as crianças", explica o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Vacina para um público específico
O Ministério da Saúde anunciou a incorporação da vacina da dengue Qdenga ao Sistema Único de Saúde (SUS) em dezembro de 2023. O Brasil é o primeiro país do mundo a oferecer o imunizante no sistema público universal.
No começo deste ano, o governo divulgou o público-alvo e a lista das cidades que receberão o imunizante (cerca de 500 municípios em 16 estados). A restrição na cobertura vacinal se deve à baixa capacidade na produção do imunizante pelo laboratório Takeda Pharma.
Serão vacinadas crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos. Segundo o ministério, essa é a segunda faixa etária com mais hospitalizações: 16,4 mil de janeiro de 2019 a novembro de 2023.
O público que concentra o maior número de hospitalizações é o de idosos. No entanto, a Qdenga não está liberada para os maiores de 60 anos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o imunizante para pessoas de 4 a 60 anos.
Ao todo, serão entregues 6,5 milhões de doses -- 5,2 milhões foram compradas pelo governo brasileiro e o restante foi doado pela fabricante. O volume, segundo a Takeda, é o limite da sua capacidade de produção. Para 2025, a pasta já contratou 9 milhões de doses.
Por que esse aumento de casos de dengue em 2024?
De acordo com o Ministério da Saúde, a projeção do aumento de casos da doença se deve a fatores como a combinação entre calor excessivo e chuvas intensas (possíveis efeitos do El Niño) e ao ressurgimento recente dos sorotipos 3 e 4 do vírus da dengue no Brasil.
Em entrevista ao podcast "O Assunto", Stefan Cunha Ujvari, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e autor do livro "A história das epidemias", explicou que é normal ter epidemias de dengue de tempos em tempos.
"A gente estava esperando a qualquer momento o aparecimento dessa epidemia. E, logicamente, a epidemia depende de vários fatores, como o aumento de temperatura, que favorece a proliferação do mosquito, um período de chuvas intensas, que aparece principalmente nos períodos de El Niño e, por isso, a gente pode ter nossas epidemias de dengue. A gente já tem os quatro tipos do vírus da dengue circulando no Brasil".
O infectologista ressaltou que o El Niño e as ondas de calor são ambientes favoráveis para o mosquito da dengue. "No verão, com a chuva e a onda de calor, começa a aumentar a população de mosquito e, por isso, o pico das epidemias é esperado no final de março e começo de abril. Então, ainda tem perspectiva grande de piorar o quadro".
O que é essencial saber sobre a dengue:
- O vírus da dengue é transmitido pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti infectado e possui quatro sorotipos diferentes - todos podem causar as diferentes formas da doença;
- Todas as faixas etárias são igualmente suscetíveis à doença, porém as pessoas mais velhas e aquelas que possuem doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial, têm maior risco de evoluir para casos graves e outras complicações que podem levar à morte;
- Os principais sintomas são: febre alta, dor no corpo e articulações, dor atrás dos olhos, mal-estar, falta de apetite, dor de cabeça e manchas vermelhas no corpo. A forma grave da doença inclui dor abdominal intensa e contínua, náuseas, vômitos persistentes e sangramento de mucosas;
- A dengue hemorrágica, forma mais grave da doença, é mais comum quando a pessoa contrai o vírus pela segunda vez;
- Ao apresentar os sintomas, é importante procurar um serviço de saúde para diagnóstico e tratamento;
- Como evitar a dengue? O mais importante é não deixar água parada e acumulando por aí: o mosquito pode usar como criadouros grandes espaços, como caixas d'água e piscinas abertas, até pequenos objetos, como tampas de garrafa e vasos de planta.
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